Como avaliamos a liderança?

É conhecida a história de uma formação interna da General Electric, que pedia aos participantes para debater a veracidade das duas frases seguintes (nota: isto aconteceu quando Jack Welch ainda era director da General Electric, no início da década de 1990):

1. Jack Welch é o melhor líder da história da General Electric
2. Jack Welch é um cretino

A verdade é que, consoante as nossas concepções de liderança, podemos considerar qualquer das frases verdadeira, ou mesmo as duas. Analisando o desempenho económico-financeiro da General Electric durante a gestão de Jack Welch, é óbvio que ele conseguiu valorizar imenso (o valor em bolsa multiplicou-se 400 vezes) a organização e guiá-la com sucesso durante 20 anos. Por alguma razão foi considerado o melhor gestor do século XX pela revista Fortune. Por outro lado, o carácter irascível de Jack Welch é bem conhecido, sendo acusado de colocar imensa pressão nos seus colaboradores e de não mostrar empatia pelo trabalhador comum (foi dos executivos que liderou mais processos de despedimento e que muito contribuiu para o agravamento do fosso entre os salários dos executivos e dos trabalhadores médios).

Significa isto que o que consideramos um bom líder dependerá do que consideramos ser o objectivo da liderança. No entanto, se tradicionalmente o que era valorizado eram apenas os resultados (lucros, sucesso em projectos, etc.), cada vez mais a sociedade valoriza a forma como os resultados são atingidos. Prova-o a emergência e crescente relevância de um conjunto de estudos sobre o lado destrutivo dos líderes e os fenómenos de bullying empresarial, bem como toda a ênfase actualmente colocada na temática do equilíbrio vida-trabalho e felicidade nas empresas. Esta preocupação com os meios da liderança e não apenas com os seus fins resultará essencialmente de dois factores: a crescente importância dos trabalhadores do conhecimento na criação de valor pelas organizações (o capital humano tem-se tornado mais importante do que a capacidade financeira para o sucesso das organizações, e esses trabalhadores “exigem” um ambiente de trabalho positivo e estimulante, em que lideranças abusadoras não têm lugar), e a crescente preocupação das organizações com a sua reputação (qualquer escândalo ou situação menos clara resulta em desvalorização bolsista, quebra de receitas e redução do valor da marca, o que faz com que as empresas invistam cada vez mais na sua responsabilidade social e em tentar ser conhecidas como bons locais para trabalhar).

Apesar do inegável sucesso financeiro que Jack Welch proporcionou à General Electric, o seu estilo de liderança seria hoje bem mais questionado e criticado. Cada vez há menos espaço para cretinos nas organizações do século XXI.

Autor: António Calheiros
Docente de Gestão; ISCAC – Coimbra Business School

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