Perfil RH – Liderança

Arménio Rego é Professor na Universidade de Aveiro, e membro do Business Research Unit (ISCTE-IUL). É doutorado em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. É autor ou co-autor de mais de quatro dezenas de artigos em revistas internacionais e de cerca de quatro dezenas de livros em áreas como a Liderança, o Comportamento Organizacional, a Justiça nas organizações, a Gestão de Recursos Humanos, o Coaching, e a Responsabilidade Social das Empresas. A sua área de investigação centra-se nos estudos organizacionais positivos, liderança, justiça nas organizações, comportamentos de cidadania organizacional, inteligência emocional, criatividade, responsabilidade social das empresas, felicidade no trabalho.

1- Como caracteriza a actual GRH?
A GRH assume diferentes nuances em diferentes organizações. Posso afirmar, todavia, que nas organizações com gestão mais sofisticada, a GRH está cada vez mais focada na vertente comportamental em detrimento da administrativa; assume, progressivamente, uma lógica estratégica contributiva do desempenho global da organização.

2- Quais as consequências/papel da liderança na GRH?
Uma boa GRH requer boa liderança. E a GRH pode ser um fator de desenvolvimento das lideranças, aos mais diversos níveis, na organização. Diria que uma função essencial de uma boa GRH é a capacitação da organização para que possua abundância de líderes capazes de desenvolverem as forças dos membros organizacionais.

3- Na sua perspectiva, e de acordo com os estudos já realizados, qual o estilo de liderança melhor aceite pelos colaboradores? E porquê?
Diferentes estilos são valorizados em diferentes contextos, por diferentes liderados, em diferentes momentos. Um estilo apropriado na Rússia pode não sê-lo na Suécia, e vice-versa. Um liderado com grande sentido de autonomia valoriza um líder que lhe conceda autonomia – mas o mesmo não ocorre com um liderado “dependente”. E um estilo apropriado em tempo de guerra pode não ser adequado em tempo de paz (exemplo paradigmático é o de Churchill). Dito isto, acrescentaria: as organizações precisam de líderes humildes e perseverantes, corajosos, honestos, respeitadores, firmes e capazes de desenvolverem as forças dos liderados.

4- O que necessitam os líderes portugueses para serem mais eficazes e bem-sucedidos?
Em Portugal, como em todo o lado, há líderes mais eficazes e outros menos eficazes. Numa avaliação global, o que me parece merecedor de melhoria passa por alguns dos seguintes processos: (1) liderar pelo exemplo, fazer antes de ordenar que se faça; (2) respeitar a diferença, valorizar a discordância honesta, acolher o mensageiro da má notícia em vez de promover o “respeitinho”; (3) gerir melhor o tempo; (4) premiar mais o mérito e menos a bajulação.

5- Essa liderança que descreve potencia melhores resultados e melhor desempenho? De que forma?
Por três razões. Primeira: permite aproveitar o potencial de conhecimentos, ideias e competências espalhados pela organização. Segunda: permite o melhor uso do tempo e a melhor organização dos processos. Terceira: fomenta a confiança e torna o líder mais credível e mais capaz de encorajar os liderados.

6- As qualidades do líder que motiva, que “puxa” pelos colaboradores, que caminha ao lado deles, é a qualidade mais acertada para o crescimento do negócio?
É uma qualidade importante. O melhor treinador não é, simplesmente, o que contrata “Cristianos Ronaldos”. É o que transforma jogadores modestos em estrelas. É o que estimula jogadores desse calibre a, durante o jogo, “darem o litro”. Muitas organizações e muitos líderes desperdiçam o potencial contido nos liderados.

7- As suas publicações na área da Liderança, centram-se bastante na comunicação pessoal e organizacional. A comunicação pode ser uma vantagem para as organizações? E qual a melhor maneira de comunicar?
É importante saber falar em público, usar linguagem encorajadora, usar da assertividade respeitadora e estimular a partilha de ideias e conhecimentos. Mas a mensagem mais portentosa é a dos atos. Tão importante quando as mensagens verbais ou escritos é a mensagem transmitida pelos atos. Alguns líderes são doutos em “oratória”, mas péssimos exemplos quando adotam atos que colidem com as suas palavras. Bem prega Frei Tomás…

8- Em que consiste a liderança positiva? Quais as suas vantagens e desvantagens numa organização?
A liderança positiva consiste, fundamentalmente, em fazer uso das forças e das qualidades das pessoas, edificar condições para que as pessoas fazem uso do seu potencial, e criar equipas caraterizadas pelo dinamismo, pela confiança, pela coragem e pela partilha. Há duas maneiras de encarar a liderança: como loja de reparações (i.e., resolver o que está mal”) ou como espaço repleto de oportunidades e talentos. A liderança positiva remete para esta segunda fórmula. Cautela, porém: a liderança positiva não negligencia o que está mal. Antes encara os erros como oportunidades de aprendizagem e transforma o veneno em remédio.

9- Os líderes também falham. Em que consistem estas falhas? Devem estes assumir o erro perante os restantes recursos humanos para demonstrarem que também podem falhar?
Um conceito fundamental para se compreender essa lógica é “segurança psicológica”. Uma equipa é psicologicamente segura quando as pessoas se sentem seguras para pedir ajuda e ajudar, assumir desconhecimento, expor divergências e assumir/partilhar o erro (para que outros não o cometam). Não se trata de criar uma cultura de laxismo ou negligência! Trata-se, antes, de promover um clima de excelência que requer capacidade de experimentar e assumir riscos. Se o erro honesto é punido, quem é capaz de arriscar, experimentar – e ser punido? O exemplo do líder é crucial.

10- Quais os maiores desafios que um líder enfrenta?
Depende dos contextos e dos momentos. Mas diria que um risco de grande envergadura é perder contacto com a realidade. Quando um líder mata o mensageiro da má notícia, se rodeia de yes men, afasta liderados que lhe fazem sombra, olha para o mundo a partir da sua poltrona – o risco de viver num mundo fictício é grande. Alguns dos grandes ditadores padecem desse mal: rodeados por apaniguados que lhes dizem o que eles querem ouvir, não compreendem que o mundo em seu redor está a desabar. Caem do pedestal num ápice.

11- Pensa que ainda há muito a descobrir sobre a liderança?
Há milhares de estudos e de livros sobre liderança. Mas nenhum contém o segredo da boa liderança. E não pode conter porque o fenómeno é complexo: envolve uma interação complexa entre líderes, liderados e a situação. Diferentes situações requerem diferentes lideranças. Diferentes liderados interpretam de modos distintos os mesmos comportamentos de liderança. Em suma: a liderança não é “o líder” – é um processo que envolve líderes e liderados numa dada situação. Não deveríamos colocar tamanha ênfase no líder – e deveríamos valorizar mais o papel dos liderados.

12- “A maior habilidade de um líder é desenvolver habilidades extraordinárias em pessoas comuns.” – Abraham Lincoln. Qual o seu comentário a esta afirmação?
Concordo com o pensamento de Lincoln, um dos meus heróis. O líder deve ser um servidor que capacita pessoas “comuns” a darem o seu melhor em prol de um propósito meritório. Para tal, deve dar o exemplo e partilhar os resultados dos esforços e dos sacrifícios. Infelizmente, alguns líderes democratizam os esforços e os sacrifícios, mas apropriam-se dos resultados alcançados com tais esforços e sacrifícios.

Entrevistado: Professor Dr. Arménio Rego

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